PARTE 1
A brisa caribenha deveria ter o gosto de um conto de fadas. Em vez disso, no terceiro dia da minha lua de mel, parecia um nó que se apertava lentamente. Este iate de luxo multimilionário — um presente de casamento do meu pai bilionário — tinha se transformado de repente em uma gaiola flutuante.
Durante três dias, estive mergulhada em uma letargia anormal. Flynn, meu marido perfeito, acariciava meu cabelo e dizia que era enjoo. Ele me dava dois comprimidos brancos todas as noites, com muita atenção. Eu confiava nele. Até esta tarde.
Algum instinto primitivo me obrigou a abrir os olhos pesados. Lutando contra uma tontura que parecia um peso de chumbo, usei as paredes de mogno como apoio, saindo furtivamente da suíte. Quando cheguei à escada do meio do andar, minhas forças haviam se esvaído. Desabei contra o corrimão de latão frio, ofegante.
Foi então que o tilintar das taças de champanhe ecoou do convés inferior. Seguido de risos.
“Como você está controlando a dosagem, Flynn?” A voz era rápida e objetiva. Era Aidan, meu sogro.
“Não se preocupe, pai. Dois comprimidos todas as noites, mais um pouco a mais na sopa dela agora. À meia-noite, ela nem vai conseguir abrir os olhos.” O tom de Flynn era desleixado, carregado de uma casualidade aterradora, como se estivesse falando do tempo.
Meu coração disparou contra as costelas. Gelo inundou minhas veias.
“Então, vamos fazer nossa jogada hoje à noite?”, sussurrou Fiona, minha sogra — a mesma mulher que sempre me mimava, me chamando de “minha doce filha”.
“Esta noite”, confirmou Flynn. “Uma tempestade está prevista para depois da meia-noite. A tripulação estará dentro do barco. Vou acompanhá-la até o convés de popa e dizer que ela precisa de ar fresco. Então… apenas um leve empurrão. O oceano cuida do resto.”
“E o fundo fiduciário? Quando é que vamos receber o capital?”, insistiu Aidan.
Flynn deu uma risadinha — um som sombrio e sem alma. “Consegui a assinatura dela na procuração antes do casamento. Assim que as autoridades declararem que ela se perdeu no mar, 300 milhões de dólares vão desaparecer nas minhas contas suíças.”
Fiona soltou uma risada aguda e satisfeita. “Brilhante. Aquela herdeira patética realmente acredita que se casou com o Príncipe Encantado. E os pais dela?”
“Eles vão para as montanhas na próxima semana. Meus homens já estão esperando. Uma falha trágica nos freios em uma estrada gelada, e toda a família Sterling se reúne no céu.”
Meu estômago revirou violentamente. Tapei a boca com as duas mãos para abafar um soluço, cravando as unhas nas palmas das mãos. Eles estavam bebendo o champanhe do meu pai no iate dele, brindando à erradicação de toda a minha família.
As drogas voltavam a correr pelas minhas veias, a densa neblina ameaçava me afundar. O oceano rugia lá fora, à espera.
Faltam apenas algumas horas para a meia-noite. Sozinho, em águas internacionais, cercado por predadores disfarçados de família… o que devo fazer para sobreviver?
PARTE 2
Belisquei impiedosamente a pele sensível das minhas coxas, usando a dor localizada para evitar o efeito dos sedativos. Rastejando de volta para a minha suíte, vasculhei um monte de suéteres de grife e abri um fundo falso que eu mesma havia projetado para a minha mala. Lá dentro, encontrei um celular pré-pago descartável com um chip não registrado — uma precaução paranoica que meu pai insistia que eu carregasse.
Ativei o aplicativo de gravação de voz, enfiei o aparelho no bolso do meu roupão e cambaleei em direção às portas de vidro da varanda. O terraço da nossa suíte ficava bem acima da sala principal. Sentando-me de bruços no piso frio de madeira teca, encostei-me ao parapeito. O vento salgado e gelado chicoteava meu rosto, mas o microfone captou as vozes lá embaixo com perfeição.
“O champanhe já está preparado para esta noite?”, perguntou Flynn.
“Você precisa misturar o pó com o álcool para dobrar a meia-vida do sedativo. Eu já lidei com isso há muito tempo”, afirmou Aidan. “Concentre-se em colocá-la na posição vertical. Sua mãe e eu estaremos esperando perto do convés inferior para ajudar com o descarte. Lembre-se, certifique-se de que um dos sapatos dela caia no convés e bagunce o cabelo dela. Uma queda acidental no mar precisa parecer totalmente autêntica para os investigadores.”
Eu fiquei paralisado contra o chão, tremendo incontrolavelmente, registrando os detalhes do meu próprio assassinato.
PARTE 3
Assim que as vozes lá embaixo se dissiparam, arrastei-me de volta ao criado-mudo, peguei o copo de água com droga que Flynn havia me deixado e despejei cada gota na pia do banheiro. Troquei por água fresca da torneira, espalhei uma pequena quantidade de pó branco na borda para parecer que nada havia acontecido e me enfiei debaixo das cobertas no exato momento em que a porta da suíte se abriu.
Flynn entrou, com o rosto demonstrando uma suave e gentil preocupação.
“Mabel, querida? Como você está se sentindo?”, ele ronronou, sentando-se na beirada do colchão. Ele estendeu a mão, acariciando suavemente minha bochecha. Tive que reunir toda a minha força de vontade para não arrancar o dedo dele com uma mordida.
“Estou tão tonta, Flynn…” murmurei, mantendo os olhos semicerrados, fingindo estar completamente incapacitada. “A água… tem um gosto amargo…”
“São só os eletrólitos, querida”, mentiu ele suavemente, beijando minha testa. “Durma agora. Eu te acordo mais tarde para você tomar um ar fresco.”
No instante em que ele virou as costas e saiu da suíte, eu me sentei. A gravação foi salva no celular descartável.
Peguei o dispositivo de conexão via satélite seguro, conectado à rede de segurança privada do meu pai. Disquei o único número que eu sabia de cor: o do chefe de segurança do meu pai, um ex-SEAL da Marinha que protegeu nossa família por vinte anos.
“Mabel?” respondeu a voz grave ao segundo toque.
“Eles estão me drogando”, sussurrei, com a voz tensa e cortante. “Flynn, Aidan e Fiona. Eles planejam me jogar ao mar à meia-noite e simular um acidente de carro para a mamãe e o papai na semana que vem. Eu tenho uma gravação de áudio completa da conspiração.”
Imediatamente, um silêncio aterrador se instalou na linha.
“Dê-me suas coordenadas de GPS, Mabel”, ordenou ele secamente. “Estamos a quarenta minutos de distância, na embarcação de interceptação secundária. Permaneça no chão. Não consuma nada. Consegue ficar trinta minutos?”
“Vou me fazer de vítima até o último segundo”, respondi. “Tragam algemas pesadas.”
PARTE FINAL
Às 23h45, o céu ficou completamente escuro e uma forte rajada de vento começou a sacudir o iate.
Flynn entrou no quarto. Sem dizer uma palavra, ele me puxou da cama. Eu me fiz de desamparada, deixando meus pés arrastarem pelo chão, balbuciando palavras incompreensíveis enquanto ele me abraçava pela cintura e me guiava para o convés de popa escorregadio e molhado pela chuva.
Aidan e Fiona esperavam perto da grade de proteção, envoltos em capas de chuva escuras, com os olhos brilhando com uma ganância fria e assassina.
“Ela está submersa?”, sussurrou Fiona, tentando se fazer ouvir por cima do rugido do vento.
“Ela mal consegue manter a cabeça erguida”, zombou Flynn. O marido gentil e amoroso havia desaparecido por completo; em seu lugar, estava um monstro. Ele me arrastou até a beira, erguendo meus pés em direção à grade inferior. “Adeus, Mabel. Obrigado pelos 300 milhões.”
“Espere”, sussurrei baixinho.
Flynn fez uma pausa, um sorriso cruel surgindo em seus lábios. “O que foi isso, querida? Quer dizer suas últimas palavras?”
Endireitei a coluna, travei os joelhos e olhei-o fixamente nos olhos com total e gélida sobriedade.
“Eu disse… olhe para cima.”
Antes que Flynn pudesse processar minhas palavras, um rugido ensurdecedor pôs fim à tempestade. Quatro holofotes ofuscantes iluminaram o convés por cima, enquanto um enorme helicóptero tático pairava diretamente sobre o iate.
No mesmo instante, três lanchas de interceptação da Guarda Costeira em alta velocidade emergiram da escuridão, cercando o iate com suas sirenes soando pela água.
Oficiais táticos armados desceram de rapel até o convés de teca, com as armas em punho.
“GUARDA COSTEIRA DOS EUA! NINGUÉM SE MEXA! ABAIXEM-SE PARA O CONVÉS AGORA!”